18 de março de 2016

Quarto - Emma Donoghue


Título original: Room
Autor: Emma Donoghue
Editora: Verus
Páginas: 350
Adicione: Skoob
Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la. O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar.

Finalista do Man Booker Prize, Quarto é uma história emocionante que consegue sensibilizar, e ao mesmo tempo horrorizar, até os de corações mais duros. Narrado por Jack, um garotinho de 5 anos, Quarto é a história de amor entre um filho e sua mãe. É também a história de algo muito horrendo, a essência dos pesadelos de qualquer ser humano e algo que, infelizmente, seguido aparece em artigos e páginas policiais. Emma Donoghue, uma escritora aclamada pela crítica e grande historiadora, criou seus personagens baseados nas histórias reais de Natascha Kampusch e Josef Fritz, histórias essas que abalaram o mundo todo, quando vieram à tona.

Emma Donoghue nos leva para o universo interno de uma mãe que faz de tudo para transmitir a normalidade para uma criança de 5 anos que nunca saiu de seu Quarto, e, logo em seguida, nos leva para fora dele, para um mundo cheio de maravilhas e terrores.

Prisioneiro ao longo de sua curta vida, Jack acorda em seu quinto aniversário no Quarto. O leitor, de cara, percebe que tem alguma coisa muito estranha no ar, mas a narrativa de Jack é brilhante e envolvente, e, por alguns momentos, até conseguimos esquecer que está não é uma história comum. O Quarto, uma “caixa” minúscula forrada de cortiça com espaço apenas para os utensilios mais básicos, é todo o mundo de Jack. Sua mãe faz de tudo para fazer da infância de Jack, algo normal, mesmo que isso seja quase impossível. A Mãe, trabalha duro para fornecer ao seu filho uma educação, brincadeiras, e um mundo lógico, com regras e limites. Mas muitas vezes a Mãe “vai embora”, caindo em períodos depressivos onde ela não consegue sair da cama.

Emma transmite com presição o tédio que cerca a rotina doméstica dessa família, sem deixar de lado a verdade tensa, nauseante que é o abuso e o sequestro. O captor da Mãe, um homem que Jack apelidou de Velho Nick, é retratado brevemente, como um homem irritadiço. Jack é mantido escondido dele, sempre que o Velho Nick vem “visitar” a Mãe, Jack dorme dentro do guarda-roupas, com as portas bem fechadas. Em uma das cenas mais escabrosas do livro, Jack conta quantas vezes a cama de sua mãe balança, enquanto espera que o Velho Nick vá embora e deixe sua Mãe sozinha. A depressão da Mãe é algo que até posso entender, mas que deixou a leitura um pouquinha cansativa, mas em compensação, Jack consegue cativar o leitor com sua narrativa meiga e ingênua, seu monólogo interno não demonstra qualquer tipo de traumas causados pela falta de um mundo coeso.

Toda a segurança e normalidade que Jack trazia consigo é completamente espatifada pela Mãe. Ela diz a ele a verdade por trás de sua vida no Quarto, algo que Jack, com seus míseros 5 anos, não consegue assimilar muito bem, sendo assim, ele fica viselmente confuso e aflito. E com toda a razão. O livro retrata apenas parcialmente sobre a ambivalência da relação materna nestas circunstâncias insuportáveis. Esse é um dos passos em falso do livro, em questão de credibilidade, pois é difícil de entender por que só agora a Mãe tem vontade de deixar o quarto. Porque ela não fez isso antes?

A minha maior dúvida era como você escreve sobre sequestro, cativeiro, tortura, abuso sexual e violência que é desconfortavelmente muito próxima a realidade, sem parecer um enorme sensacionalista? O narrador de Donoghue tem uma resitência extraordinária e uma inocência muito útil. Conforme a vida deles vai seguindo, na segunda parte do livro, a voz de Jack vai assumindo um tom mais enigmático e, um tanto quanto, cínico. Tudo para ele no mundo exterior é idiota. Os jornalistas são parasitas; os médicos de saúde-mental têm boas intenções, mas são ineficientes. Ninguém consegue entender o que a Mãe está passando, mas Jack consegue. Mesmo ele sendo uma criança, ele tem uma percepção muito aguçada e nada passa despercebido por ele.

Conhecemos todos os personagens através dos olhos de Jack, e é aí que percebemos como a sua ótica é pura. Mesmo ele sendo um observador nato, ele ainda não consegue assimilar em sua totalidade determinados acontecimentos, como em um momento que ele chega a conclusão que sua mãe está louca, mas esse fato não abala o seu próprio equilíbrio, ou a sua capacidade de absorver o resto da cena.

No geral, Quarto é uma leitura que apesar de ter um enredo complexo e dramático, nos deixa sensibilizados com a forma de Jack enxergar o mundo. É impressionante perceber determinados fatos pela ótica de uma criança. Não tenho palavras para dizer como esse livro mexeu comigo, só posso recomendar a leitura e dizer para estarem preparados, pois o baque emocional é grande.

0 comentários:

Postar um comentário